Não há viagem que faça sem me deparar com esta ideia mesquinha, este dogma patético segundo o qual acumular créditos é o caminho.
devia tirar tempo ao tempo que tira tempo / mas eu desejo o desejo de ser desejado.
E se nos desfizermos dos dias? Ficarmos só com as noites, com o escuro denso e impecável, com as alucinações que criamos em horário nobre.
Tu e eu somos um baluarte, somos património, somos este pedaço de eternidade que cavalgou por cima da solidão e fez de duas almas não uma perfeita em simbiose mas duas vivas individuais e presentes.
Começo a acreditar, cada vez mais veementemente, que vivemos numa ilusão coletiva.
Engarrafada no trânsito, porque os políticos são inertes, um artista escorregou num pedaço de óleo, ou uma relíquia decidiu preparar-se para um museu.
My hands are stained with blood / Yours lay as far as they could / I sit alone with this disease.
Carlos chega atrasado, suado, e senta-se de qualquer jeito. Mal me olha nos olhos.
Vivemos agarrados a premissas, a verdades fundamentais e pessoais que nos seguram nos momentos de maior aperto.
E nas antípodas do que profetizo vem o efeito borboleta, a ideia de que vivemos domados pela circunstância, que um pequeno mal-estar pode levar a um caos duradouro.