E se nos desfizermos dos dias? Ficarmos só com as noites, com o escuro denso e impecável, com as alucinações que criamos em horário nobre, enfim desprovidas de sentido por ausência de contexto. Ficarmos só com a noite, num lugar onde o tempo é estanque e paira sorrateiro pelo ar, criando um tempo onde não há um tempo nem há tempo para sonhar, oh!, acabem com o tempo, acabem com o significado e sua lamentável evangelização.
Um dia, quando o fardo da idade for inescapável e o vazio tomar irrevogavelmente conta do eu, terei de olhar para o passado com um pesar. Por fim estabilizado e havendo alcançado o que há a alcançar, ficarei apenas com a dor de ter compreendido pouco, investido nas frentes erradas, dialogado com pouco mais que o meu orgulho. Enquanto penso isto, deparo-me com a circunstância de que o passado ainda é amanhã, mas de pouco me serve isso, não me sei capaz de lutar contra tamanha premonição, e a vida tem-me mostrado que o que há de mau para acontecer tende mesmo a acontecer.