O estado da saúde em Portugal

Falamos há cinquenta anos do estado lastimável do serviço nacional de saúde, conquista máxima de abril, e assim há de continuar por outros tantos, porque mudam as direções do Estado e prevalece a característica primeira do ser humano que é o medo, pelo menos enquanto nos detivermos com o ataque público às vidas pessoais, e cada ciclo for uma contagem inexorável de dias até um fim. Cómodos, mas enfim ainda com ideias a tempos, os responsáveis concelhios anunciaram recentemente a abertura de um nova unidade local de saúde, vulgo centro de saúde ou posto médico para as gerações mais envelhecidas. É portanto com alegria e curiosidade que aqui me encontro, na fila para ser atendido no estabelecimento que abriu hoje, sou um pioneiro, disto já se sabia, mas até a mim me surpreendi quando para ser fiel a mim mesmo usei o pretexto de fazer análises, cujo resultado não deverá ser animador, tendo em conta que não me venho tratando exatamente como gostaria.

A fila comum promete uma espera longa, requerendo um tempo que, de modo absoluto, tenho, porque o dia é tão extenso, mas na prática não tenho, porque não quero dar a algo que me cansa. É assim que a humanidade funciona, e não hei de ser eu a mudá-lo. Há, contudo, uma alternativa. Junto a esta configuraram-se outras três, menos ortodoxas, servidas por três indivíduos negros, com mochilas grandes, cúbicas, verdes às costas. Serão a solução perfeita. Veloz, abandonei a minha formação e dirigi-me àquela imediatamente à sua direita. O que irá desejar, começou o sujeito, Umas análises ao sangue, Pois disso não temos, temos batatas de pacote, bolachas, até gomas das mais diversas variedades, análises não temos, Isto é um centro de saúde, disparei, Mas isto não é a fila da saúde, quando muito, poderei agilizar um pedido junto da minha colega, mas apenas se adquirir as bolachas, continuou, Tenha vergonha, rematei, correndo para fora do edifício visivelmente revoltado com a situação.

Nestes momentos de maior surpresa, que inevitavelmente abordo com um ímpeto prejudicial à saúde de todos, seria mais adequado que me acalmasse e mudasse o tema para outro mais agradável. A história devia ter prosseguido da seguinte forma: Disso não temos, temos batatas de pacote, bolachas, até gomas das mais diversas variedades, análises não temos, Lamento, julguei que fosse uma unidade local de saúde, mas ouça agora esta teoria fenomenal que me surgiu ontem num sonho, Ora essa, que maravilha, conte, Se as relações tivessem paralelo com o universo da academia, seria o estádio de fala o primeiro semestre da licenciatura, o beijo o segundo ano, a noite juntos o projeto integrador, o namoro o mestrado e o casamento o doutoramento, E quem seriam os professores, Essa é a pergunta mais simples, seriam os nossos pais, Agora é que me apanhou desprevenido, os pais, que tantas barbaridades fazem e distorcem para sempre a nossa noção de academia, Precisamente, lembre-se de que também é a sua primeira vez a viver e enquanto pais, e além do mais há maus professores na academia, Com essa convenceu-me, mas não acha inadequado trazer um sonho a um lugar que já é um sonho, De todo, é adequado porque assim o arbitrei, Então assine aqui, que o encaminho de seguida para fazer as análises, Agradeço-lhe, não sabe quão agradecido lhe estou.