Falemos de limpezas. Quando às quatro me interrompem a noite com um zumbido e varro na mente o portefólio de reparos que me deixam acerca da minha organização rotineira, Faz um esforço para limpar as mãos a um pano que não seja aquele que é usado para secar a loiça, ou Sempre que aspirares o quarto, aspira também a parte do corredor mais próxima de ti, ou Limpa a tijoleira do poliban, que não é nada bom visualizar as populações fúngicas, vêm-me duas preocupações principais. Primeiro, me entristece, não em demasia mas o suficiente para ocupar espaço, o facto de estas objeções, todas elas extremamente adequadas, serem comunicadas em conjunto; as más notícias têm um ritmo próprio, ao aqui o quebrarmos, tendo como visado o homem que agirá regando as paredes de lixívia e havendo que lidar com a dor de cabeça subsequente, estamos pelo tom transformando uma necessidade e uma nobre sugestão de mudança de direção em um desfavor ao próximo. Depois, enfim, porque me levanto consternado com o zzz do mosquito, zzz para aqui, zzz para acolá, me armo da almofada, de uma sapatilha velha, de tudo o que me venha à mão, ponho-me a saltar na cama e empenho uma dose concreta de fúria na senda do assassinato deste ignóbil animal, e a isto acrescentando o prurido multiplicado pelo corpo, temo acordar os vizinhos; quero crer que, ainda que habitando num quarto cujas paredes confinam com as minhas, porque se amam tanto e de forma tão consistente, fiquem na mesma dormindo profundamente, depurando a adenosina de tal modo que lhes permita acordar com energia e vontade de fazer boas coisas. Seria trágico, absolutamente trágico, que estejam dormindo mal porque foram deitar-se com várias coisas por resolver, faltava-lhes a energia e a motivação que o empregador lhes pilhou, isto começou há meia dúzia de meses, repetiu-se e agora mal se falam, estão exaustos, entraram num ciclo mutuamente destrutivo, por favor, se for este o caso, considerem amanhã, por uma vez, falarem, falarem até quando for preciso, até que disponham de condições para descansar os dois linda e maravilhosamente, a vida é tão curta, as noites tão boas, temos o dever de fazer destas o templo sagrado das nossas vidas, além disso, é tão especial só estar dormindo; se eu pudesse, transmitir-lhes-ia estes pensamentos, mas de momento, com o mosquito morto, vou buscando um pedaço de papel com sabão para limpar a almofada.