Tardes de circo

O circo era, sem sombra de dúvidas, o evento mais memorável do ano na cidade, para miúdos e graúdos. Por volta do início de junho, começava a limpar-se o descampado junto ao parque, ofício que mobilizava centenas de homens, alguns recém-contratados, o que alavancava a economia local. Preparado o terreno, pintava-se então a paisagem de verdes e vermelhos aguerridos, edificados a cada tenda montada.

Entre manobras e trapézios vários, que muito me impressionavam, eu e o meu pai falávamos. Eu perguntava-lhe qual a origem de tamanha técnica, ao que ele me respondia com a dedicação e o espírito de sacrifício que aqueles profissionais colocariam nos treinos. Constituía esta a forma primeira de singrar na vida — dizia-me, enquanto me fazia uma festa na cabeça —, de deixar a nossa marca no mundo. Tendo isto, um ano, decidi que queria ser trapezista. Antes quisera ser polícia.

No fim dos espetáculos, astutos, evitávamos as filas do bar do circo, caminhávamos velozes por entre as ruas do centro histórico e lanchávamos um bolo e uma cola. Era o nosso truque especial. Uma vez por outra, encontrávamos neste café outras pequenas famílias vindas do mesmo descampado feito circo. Nesta época, as pessoas eram suficientemente felizes para devorar um saco de pipocas, trincar um doce no centro e no fim correr atrás dos irmãos. O ritmo a que carburavam não admitia considerações sobre gorduras e presságios biológicos.

Num desses anos conhecemos uma mulher nas bancadas. Vestia um cachecol branco e preto e sempre um sorriso bonito. Fez do meu pai outro, como já não me recordara: gargalhava sem subterfúgios, lambia gelados, planeava viagens. Ela passava-lhe a mão pelo rosto e ele ajeitava-lhe o cachecol, enquanto fabricavam assuntos como quem não vê hora de saída.

Recebi um dia a notícia do divórcio dos meus pais com raiva e incredulidade. Na minha cabeça, as discussões eram parte de qualquer casa; nunca estas haviam sido obstáculo para que me tratassem bem e me dessem condições para ser quem eu quisesse ser. As razões que o meu pai apontou — um desgaste fundamental, um choque básico de ideias de vida, o temperamento pávido e irritadiço da minha mãe — eram avassaladoras. O cansaço nos seus olhos era notório. Perante isto, eu também deixaria a minha mulher. O que mais me frustrou foi tudo isto se ter construído pela calada, a altas horas da noite, enquanto eu miúdo estava a dormir sonhando com jogar futebol no dia seguinte em educação física.

Ainda que admita que a minha madrasta faz do meu pai um homem bom e feliz, nunca pude nutrir qualquer afeto por ela. Ela tem um sotaque parvo, do sul, não pronuncia bem o nome da minha terra natal, atropela as frases que saem da boca numa amálgama hilariante de sons anasalados. No circo, destoa brutalmente dos locais. Quando, porém, fica em silêncio, de perfil, e estranhamente se assemelha um pouco à minha mãe, não consigo evitar esboçar um sorriso.