Sempre que havia oportunidade de te ver, mesmo que para isso fosse necessário largar tudo, eu fazia-o sem hesitação. Estirava-me na areia ao sol e o sol era afável e o ar morno porque a tua chegada estava para breve… Quando chegavas irradiava-me; por isso me vias tão irrequieto; era agridoce porque se parássemos de falar sentia-me outro, com uma ambição renovada, uma forma de estar particular, ora muito contida, no momento, no beijar-te ali e contar-te como não precisava de mais nada, ora em todo o lado, num estado de preocupação que me sufocava, pairava permanente e incessantemente a ideia insuportável de me deixares, de me atirares para um estado em que produzo e preencho e inovo qual nómada cavalgante mas sem saber se isto advém de uma paixão particular pela vida ou de uma necessidade cruel de encontrar direção para não cair montanha abaixo. A experiência de viver a dois pode porventura ser reduzida a esse lugar onde os esforços são direcionados em prol de um projeto que constringe e expande concorrentemente, numa dança ansiosa e improvisada a cada dia mais intrincada.
Mais do que redutível, no final de contas, esta experiência é reproduzível. Se o mundo visível é uma caixa finita onde se movem atores de forma praticamente aleatória, estes se moldam pela sua história e pelo ambiente corrente, com motivações oscilantes e basculantes em torno de um eixo que há de ser mais ou menos estável… lá nos encontraremos de novo e o sol será então de novo mais quente e daremos as mãos dizendo de nós para nós que bom é ter uma alma gémea depois de já se ter passado por ela quando tu me tiravas do sério e me davas o mundo pela madrugada adentro três anos antes junto ao mar… Dizíamos tudo um ao outro, esmiuçávamos os planos como não fazíamos connosco sós nem com mais ninguém, cada ausência era um exercício, tantas vezes falhado… Altamente desprovidos de capacidade de análise razoável, tomamos as melhores decisões com a informação que tínhamos. Faremos o mesmo agora, cientistas destacados para novo laboratório. E um dia havemos de explodir com isto tudo de uma vez e dar por terminada esta jornada, com a certeza de que não cabemos num livro.