Tem vezes e ocasiões em que a realidade é muito pouco real, porquanto as estruturas arquitetónicas e naturais das paisagens distorcem a um ponto em que as casas se dão por árvores e as árvores se dão por embarcações. Pelo nascer de dia, tomei uma embarcação em Felgueiras, travessia da Machado de Matos até ao Cangalho, fazendo-me arrastar por águas calmas e inauguradas em sítio que não dispusera de água, e com a única insatisfação advinda do facto de não atracar nas escolas, hub necessário para conexão a outros meios e pelo qual os meus companheiros de viagem imploravam. A criação desta travessia causou-me felicidade tanta que não podia parar de falar sobre isto, a cada café que tomava, acrescentava, já souberam que fiz isto de barco, enquando vossemecês, plebeus, utilizaram as pernas, fracas e extensas, eu vim de barco. Nisto questionaram-me, como fora exatamente a viagem, o que houvera sentido em particular, se era simpático o comandante, chovia ou fazia sol, e eu fui incapaz de responder a qualquer destas tão simples e bem-intencionadas questões. Aí me apercebi no sonho de que estava a sonhar. Voltei a casa, depois, cabisbaixo. A tristeza e a fragilidade eram contagiáveis, e porque o universo funciona por soluços e saltos lógicos, dois transeuntes mal encarados exigiram-me setecentos euros para que pudesse continuar o meu percurso de vida. Lá lhes paguei, digitalmente, e eles com o ATM na mão amavelmente indagaram, Número de contribuinte, vai desejar, eu anuí, 252 e os demais, os senhores imprimiram a fatura, a colocar, anotava na minha mente, na pasta dos materiais dedutíveis em sede de IRS.