No âmago do viajante cabe uma miríade de sentimentos que coexistem numa dança exasperante. Começa fazendo as malas, pobres portadoras de tudo e de mais alguma coisa que possa ser dada como necessária num ambiente forasteiro cuja geografia desconhecemos mas que elegemos como lugar ótimo para nos reinventarmos, se os meios permitirem, por umas semanas. Partimos já ansiosos com esta máxima pairando, que cada dia seja combustível para a mudança, para uma outra viagem espiritual com destino a um lugar de dinamismo consentâneo. Findo o terminal, orquestramos uma nova versão de nós, menos condicionada pelo passado e suas materializações várias perto de Casa. A liberdade que sentimos é aromática, habita nas pedras da calçada, não admite julgamento. Tela vazia, fotografamos no vácuo, conversamos sem agenda, cumprimos somente a novidade. Somos regidos por nós e nós apenas, e ainda assim acabamos ficando indispostos, como que traindo os planos traçados, autossabotagem inelutável. É por esta altura que devemos regressar, dormir um pouco e encarnar nossa próxima versão, produto rebuscado das demais, pelo menos até à viagem seguinte.