Meses de internato

O meu primeiro contacto com a D. Emília aconteceu numa rede social. Estava à procura de reabilitação, e quando me deparei com a sua promessa de reabilitação espiritual holística, senti que valeria a pena experimentar. Por texto, ela foi eloquente, consequente, explicou que um processo de internato é longo mas gratificante, no final sentir-me-ia um só, eu, natureza, urbanidade, amigos, família, raciocínio.

Mais perto da unidade, encontrei-me então com ela no centro de internato. Era uma mulher de mau aspeto, cabelo louco e volumoso de caracóis queimados, rugas de espanto, braço tapado. Encaminhado para o quarto, fez-me juntar a minha cama com a de uma rapariga, com quem partilharia o quarto, e que fazia chamada com alguém. Discutiam se fulano pertencia realmente a uma pessoa, ou a um lugar, não percebi exatamente, o discurso tendia para o material, o que no caso, se se referisse a uma pessoa, podia querer dizer que a tal pessoa era ouro, conforto e almofada, ou simplesmente um apêndice de um mesa de trabalho para se colocar um copo de café. E é claro, esta rapariga era extremamente punk, dois cigarros na mesa da cabeceira, eyeliner negro, nenhuma relutância em trocar de camisola à minha frente. Quando isto aconteceu, naturalmente, fiquei desconfortável, ao que ela me respondeu, com essa postura, nem com camas juntas faremos algum tipo de amizade. Por outras palavras, não me darei contigo se não fores naturista ou descarado ou os dois ou pelo menos relaxares um pouco comigo ao som de Pink Floyd e do psicodelismo mais fundamental. Isto perdeu-se, e aqui recuperei-o, suspirou, Aqui vivo suspensa e suspensas ficaram as minhas preocupações e relutâncias no mundo terreno.

Menos memoráveis foram os constantes devaneios da D. Emília sobre a sua própria vida. Num dia habitual, acordávamos e íamos conversar e criar histórias paciente-paciente para a sala de estar, mas se lá estivesse a tal, sabíamos que teríamos de suportar horas de lamentações sobre o que a tinha levado a fundar este projeto, o seu ex-marido que se perdera para as trevas e outras mulheres, os filhos secretários em vez de pintores, o aquecimento global pelo qual colocou painéis solares em casa cuja finalidade contudo ficara reduzida quando a câmara, esses malandros sem escrúpulos, os vedou por falta de licença. De uma forma ou outra, nós comunidade visualizávamos uma saída quando isto se tornava para lá de degradante. Muitas vezes, optamos pelo jardim, mas o mais comum era tomarmos o caminho da praia levados pela carrinha branca dedicada do edifício para o efeito.

Eu não tinha roupa de praia e nunca cheguei a ter. Ficava junto à água de calças de ganga a ler um devaneio qualquer elevado pela idade, e esperava que a água me batesse nos pés e nas pernas, fizesse colar a roupa ao corpo, para que pudesse subir pela areia, secar-me a mim e à roupa, dois em um, verdadeira unidade aprendida em internato. Às vezes entediava-me disto, saía antes do tempo pelo meu próprio pé, mas era constantemente barrado pelo condutor facilitador, que me disse um dia, Tenho incríveis ofertas, produtos de qualidade a preços baixos, se quiseres passar terás de ver bem com atenção, Não quero nada disto, tenho que chegue no centro, para além do mais, a praia e o dia não são apropriados para se pensar nessas coisas, Isto és tu, que não és holístico, és pobre e preconceituoso, Diz o que te apetecer que de mim não obterás nada. Dito isto, dei meia volta e corri para a outra saída, longínqua mas acessível para o homem obstinado, vivendo seu último dia de internato.

Receava em grande parte que fosse apanhado pelos guardas da D. Emília e então estivesse permanentemente condenado a encontrar a unidade que, naquele ponto, sabia não ser hábil ou ágil o suficiente para fundar em mim mesmo. Bati as asas até à estação de metro mais próxima, quis acelerar pelas escadas, mas era tudo diferente do que me lembrava, as escadas de cimento largas haviam sido substituídas por pequenos funiculares e escadas estreitas e controladas, eu tomei as escadas novas, tentei correr, mas num instante apareceu-me um segurança pleno de pompa e músculo a encostar-me o ombro e dizer, Vê lá quem achas que és, respeita e sê ordeiro para com as pessoas que te rodeiam. Assenti, pois, que remédio. Aproveitei para tirar uma foto aos funiculares, jurei para mim mesmo que da próxima vez que tomasse o metro iria pela estação de funicular, maravilha no mundo caída do céu apenas porque me retirei uns meses para internato.