Se nos colocassem sem aviso prévio em clausura numa jaula, qual tigre capturado por uma organização circense de larga escala, privados de comida, bebida, excursões de caça e confraternização, e por isto esbracejássemos desalmadamente, empurrássemos os nossos corpos contra as grades, gritássemos até que a rouquidão nos impedisse de gritar mais, seríamos, indubitavelmente, considerados lutadores, injustiçados, sobreviventes, força da natureza e prova clara de opressão. Não obstante, quando nos vemos deparados com a erosão dos contratos sociais fundamentais, substituídos por interações parcas, rápidas e superficiais, a instrumentalização até à exaustão, o aluguer do tempo em troca de moedas progressivamente mais abstratas e contestáveis, e nos revoltamos através da diferença, somos prontamente dados como doentes; medicam-nos para que deixemos de nos insurgir; nos raros momentos de clarividência batemos contra um povo permanentemente esgotado e adiado; então consultamos um médico e este medica-nos mais um pouco.