há cidade com abundância
sempre que se derrota o vento
com o arrancar lento de um carro
engarrafado no trânsito
súbito um pedinte pediu-me
que lhe desse uns cêntimos
em troca de passar um pano
na carroçaria do carro
disse-lhe não haver tempo, mas
alcancei o bolso e dei-lhe cinquenta
disse-lhe, tenta, e atenta no trânsito
que eu tenho os meus trâmites
há cidade nisto e no social
no trocar-se o jornal pelo café
com os amigos de ocasião
de pé com um fino na mão
na praça central em festa
onde a gente se manifesta
e me vou esgueirando
do meu próximo pranto
venderam a minha casa
por um apartamento
pelo que sei, uma oportunidade
para cortar a renda pela metade
no altar ceifamos a infância
e aquele quadro plantado
em nós, de nós a sós
lambendo um gelado
faça-se luz na cidade!
e deem-nos que fazer
para podermos dizer
que somos cidade
e eu só queria estar a sós