Fatorização

Sim, ela é extremamente bonita, se se olha um pouco de mais para o seu rosto num momento de fraqueza, fica-se de tal maneira desajustado, corre um arrepio pelos nervos acima enquanto ela ergue a sua moradia no centro da cidade que é o pensamento, que se poderia pensar que eu, rapaz de dotes medianos, teria invariavelmente de declarar derrota, sentir-me inferior e portanto desistir à partida. Poderia pensar-se isto, e pensá-lo seria potencialmente pensar a verdade, mas o que fazemos é geralmente impensado, como tal, chega-se à realização de que isto não importa.

Uma vez caídos os preconceitos, há, contudo, que considerar uma série de fatores. Ela é pobre e eu sou rico, o que é uma viragem inesperada nesta dinâmica de poder em que haveríamos de nos encontrar. Um dia, está claro, zangar-nos-íamos por uma parvoíce de nada, é tão certo como a morte, ela pediria o espaço e eu prosseguiria, com que raio, quem pagou o espaço fui eu. Percebendo imediatamente a injustiça que acabara de proferir, porque ela criará o meu filho com uma sensibilidade que nem nos sonhos mais surreais e estapafúrdios me pode ser atribuída, usará até esta sensibilidade para me suportar nos dias em que sou mais insuportável, e estes dias são de um desconforto, eu pediria perdão e passaria os três anos seguintes tentando provar que sou digno dela. Acontece que, a partir daquele ponto, apesar de digno estaria para sempre e irrevogavelmente marcado como insensível.

Mesmo que, num plano hipotético que vai para lá do razoável, emocionalmente entre nós se criasse um espaço seguro e regulado, de um jeito ou de outro cairia uma bomba vinda da Rússia ou do Irão porque já não se pode com o ocidente e os deuses do outro lado se encontram muito zangados com os de cá. No albor mais jovial das manhãs quando olho os céus é-me impossível não ver que se passa lá algo mau, uma confusão de dimensão tal que a humanidade terá os dias contados.

E ainda assim, continua-se a olhar para a rapariga.