Facilitação (livres radicais) / Represálias de pandemia

Ouça, tenha paciência, eu considero irrazoáveis as suas duas propostas de reforma do meu sistema de pagamento, a primeira é sofrível, pagar tudo a pronto a seu preço real, rebaixando-me a consumidor banal final, e a segunda, a da taxa única, é inflexível, sonho feito pesadelo que criou aqui apenas por ter faltado a mim neste mês, A sua falha é extremamente desestabilizadora para o sistema financeiro, não pode continuar como radical livre, lamento.

Suprarreferida jaz a conversa entre mim e o meu facilitador passado sábado. Foi a primeira, e última, que tivemos, fora da caixa da facilitação. Nós tínhamos um mundo especial: sempre que nos encontrávamos, erguiam-se seis limites cúbicos invisíveis mas palpáveis em volta que nos permitiam existir em estado-passagem onde o sofrimento não entra, dançamos livres radicais como se houvéssemos sempre dançado, à medida que o tempo passava, estendiam-se os limites, cabia mais gente, meandros e cogitações, mas nós éramos os mesmos, protetores supremos da moeda de troca que perfez o nosso sistema interno. Os sistemas, porém, têm falhas, nós não escolhemos limite nenhum, e se está a mão do destino voltada para aqui ou para acolá, saímos borda fora, inábeis para voltar, em revelia para com a fragilidade das passagens, irrazoáveis a contar e a falar, microcosmos de defeitos há muito conhecidos. Assim se fez e descompôs uma série de ideias e estruturas.


Deus sabe que aconteceria se em dois mil e vinte não se houvesse dado uma pandemia, evento começado com a promessa serena de duas semanas de paz, quem não precisa de desligar, se pudéssemos desligar quatro e cinco vezes por ano para recuperar algum controlo andaríamos todos por aí vagueando desligados, corpos mortos nas praias, com os olhos fechados e o coração aceso como nunca, aí finalmente tendo o espaço para sentir e sentir bem como os seres humanos merecem sentir em conjunto. Como que ataque terrorista às torres gémeas veio porém uma época longa e arrasadora em que coletivamente ficamos desprovidos da oportunidade de falar e amar em direto, época despendida em laboratório criando ferramentas de apatia que, com certeza, durassem para lá da infeção e respondessem sim, absolutamente sem capacidade alguma para criar algo de útil, que é o mesmo que dizer algo com emoção dentro, que ultrapassa continentes, se agiganta e diz, sim, eu sou humano, eu sou e tenho um plano, em jogo estão os meus valores e o bem estar daqueles que quero, razão singular para a minha existência. Sem isto, resta-nos um mundo gravemente saturado, derivativo, desconectado e incapaz de se superar a si mesmo, e nós, nós regredimos para o estado anterior onde ficamos mas só mais velhos e desalentados. E quando queremos amar, há sempre um guião envolvido, que começa por dentro, no nosso âmago mais adaptado, pedaço de coração que usa máscara cirúrgica.