Controlo remoto

Aprecio imenso o meu namorado: não raras vezes, quando anoitece, os afazeres estão enfim terminados e não tenho com quem falar, endereço-o na imaginação estirada na cama. Ele responde-me, sempre, com sua doçura para mim reservada, abraço personalizado que excomunga a dor, ruído branco de águas calmas. Somos dois e um e eu juro que dormimos juntos porventura mais e melhor do que quando ele traz o seu corpo para estas bandas. Não sei se sou lúcida, doente ou mágica, mas sei que as horas que se seguem a esta deambulação são simples e deliberadas.

O problema maior das magias negras e sobrenaturais é que escalam, não sabem parar e hão de nos amaldiçoar. Como que acupuntura em bonecas de laboratório, uma dada noite, enquanto o endereçava, teleportei-me para o reduto do rapaz e dele me apoderei, deixando o meu corpo quase inerte no quarto, pronto a responder se chamado com uma resposta mínima e rasa. Ali, tornei-me ele, maestra de um homem largo e presente, tão presente a ponto de ninguém desconfiar ser no momento presente a dobrar, e deixei o pouco de mim restante na base.

Devo confessar que a experiência teve os seus episódios perturbadores. Não me refiro à questão do teleporte, inevitabilidade do futuro que apareceu na minha vida antes do seu tempo, mas ao facto de que, ainda que dona e senhora do pensamento-goma partilhado, no primeiro nível, no nível segundo este foi regido por impulsos maníacos, masculinidade primitiva inadaptada. Estava a sair do metro quando passou por mim uma garota deslumbrante; ao invés de a invejar um pouco e prosseguir rabugenta com o meu fado, foquei-a com olhos de felino e senti uma energia poderosa corpo acima; a pressão cardíaca galopou e entrei em pânico, sem saber se me iria trair a mim mesma; acontece que revirei o olhar e saí pela porta sul da estação, sabe-se lá possuída ou possuído por que nível e se havia um terceiro ou um quarto.

Nos dias seguintes, fui um fervilhão de nervos, ostra navegando a beira mar no litoral galego receando a sua captura, imaginando-se já no prato devorada por turistas famintos arrastando a voz pela bebida e servindo de entrada para imponentes polvos. Então, para me acalmar, pela noite, repetia o procedimento, deixava-me inerte no quarto e ia ser o meu namorado. Hoje, para variar, hei de o dirigir ao meu quarto, para que me possa querer a mim apenas, ter-me a mim apenas, sermos os dois oceano.