Estávamos embarcando rumo a Berlim, que a saudade aperta e os meios são úteis apenas se efetivamente convertidos em algo tangível, quando notei um constituinte estranho na mistura à base de azeite que transportávamos num largo garrafão de cinco litros. Esqueçamos por um instante que isto seria impossível pelas leis da física e consequentes logísticas da aviação para nos debruçarmos com seriedade sobre esta história.
O garrafão era largo, grosso, azulado e deixava transparecer a imagem de três folhas de marijuana flutuando no topo da mistura à base de azeite. Era mais do que claro, isto, e uma vez obtida a visão soube imediatamente quem tinha sido o autor desta ideia; ele é criativo e fã dos prazeres, mas por vezes excede-se e coloca-nos todos em apuros. Disparou-se-me a pulsação mas soube o que tinha de fazer. Com afinco destampei o garrafão, inclinei-o e derramei algum azeite sob o chão do terminal, a despeito das pessoas que poderiam cair ou do cheiro que se faria sentir. Assim se fez e assim se compôs a figura do garrafão, agora desprovido das folhas suprarreferidas, transladadas para o solo. Estávamos bem, finalmente, ou estaríamos, não fosse uma outra visão — estaríamos melhor não vendo — de novo par de folhas, agora boiando no fundo do enorme e azul garrafão, que me fez verdadeiramente questionar se não passaria alguns meses atrás de grades junto de assassinos e delinquentes.
Custa-me mentir, e custam-me as opacidades. Tinha de fazer alguma coisa, independentemente do futuro da nossa amizade e da extensão da minha liberdade, havia que imperar o bom-senso, o cumprimento exímio da lei, só desta forma poderia suportar a minha consciência. Dirigi-me pois ao balcão de atendimento para confessar. A mulher fitou-me com olhos de incredulidade e ficou uns noventa segundos que me pareceram uma réplica de eternidade sem proferir uma única sílaba. Experiente, extraordinariamente atraente, aconselhou-me a detalhar este episódio na sua habitação, para a qual me levaria por meios próprios, sem que para isto me fosse atribuído qualquer encargo.
Ela vivia numa casa imponente na baixa do Porto. Era talvez uma casa senhorial recuperada há não mais do que vinte anos, mas com uma história de que nem eu nem ela conhecíamos princípio, meio ou fim. O interior, oh, o interior, esse, era de uma luxúria inesquecível, autêntica casa dentro de outra, modernidade fugida dos holofotes. Impressionou-me a mobília de madeira trabalhada, senti-me acolhido pelas luzes multicolores que emitiam naquela altura raios de amarelo suave. Sonho-realidade, episódio-bomba, cenário-conto seriam compostos nominais adequados para descrever o que se sucedeu, a inacreditável movida de roupa que ela ali protagonizou, desfez-se da blusa e das calças bombazine de trabalho e encaminhou-me para o quarto onde nos envolvemos. Não tinha à data experiência suficiente para confirmar o que agora me é possível, que ali se fez magia, se se pode definir felicidade por experiência, se a considerarmos ortogonal a êxtase e sensação, seria seu corpo, nossa respiração síncrona, anseios em suspenso.
Vestimo-nos rapidamente. Enfiei as calças pelas pernas acima enquanto ela apertou o corpete — o seu corpo já vira melhor dias, suspirou — e instalou a melhor face de palestrante. Teria pela frente um público jovem, exigente, que a ouviria falar do futuro da aviação. Rapidamente, também, voltamos ao terminal, eu sentei-me na plateia e ela subiu ao palco e começou a falar. As pessoas riam-se, muito. Ela não pôde mais com aquilo, sacou da pistola de bolso e calou um dos indivíduos mais barulhentos. Caos no terminal.