Foram duas as vezes que fui interpelado pela mesma mulher. Na primeira, estávamos no Jardim das Virtudes, um tanto embriagados, o suficiente para falar de quão extraordinário é o autocarro na cidade, ponte de tudo a todos, insuficiente para que esta história se esvaia da memória, digamos apenas no ponto certo, quando esta, a horas inapropriadas, propôs a compra de uma caixa de brigadeiros a uma quantia elevada, para ajudar a família. Eu fui proponente da compra, porquanto os brigadeiros tinham bom aspeto, amigos aconchegados na bolsa da senhora em caixinhas de papel com lacinhos vermelhos bonitos, algumas em forma de coração. Não obtive quorum para a partilha, e a senhora prosseguiu para o grupo seguinte. A segunda foi à luz do dia, ia passando pela Capela das Almas, quando ela me deteve simpaticamente, a reconheci de imediato com a sua carteira característica, sorriso programático e sugestão afável para adquirir os seus bolinhos. Se isto se deu de novo, é porque o universo assim o quis, ou eu passo demasiado a pé pela Capela das Almas, para o ponto interessa pouco, relevante é que associei o destino a ação e a ação foi transferir-lhe a tal quantia. Estavam muito bons, os bolos. Meti dois à boca e deixei os restantes no grupo. Custa perceber porque se dão por brigadeiros, se parecem não querer fazer mal a ninguém e têm um sabor assim quente.