A vida como imagem

vi uma rapariga cega no metro
dei-lhe espaço para que entrasse
ia batendo de cara com a carruagem
tarde deitei-lhe a mão e de algum modo
fi-la entrar numa das portas desalinhadas
(bem se podia alinhar as portas às entradas)
ela agradeceu-me, desolada ou embaraçada
(a voz quebrantiça sem se lhe ter dito nada)
depois entrei de fininho, meio que de rajada
(a porta sinistra na pressa fechando-se logo)
vim pensando nisto e na vida como imagem