Por estes tempos, não se pode sequer usar a casa de banho em paz, está-se sentado olhando para nada, o que é já de si uma melhoria, e vêm três ou quatro formigas subindo pelas pernas acima, porque não poderiam subir pelas pernas abaixo, exclamando com voz fininha, Ai que homem satisfatório, perna laroca, vou trincá-lo todo; eu defendo-me, Senhoras formigas, por favor, tenham piedade, não vos incomodo quando vagueiam pela minha sala, o mínimo que poderão fazer por mim é deixar-me ficar do mesmo modo descansado, Mas este gémeo, meu senhor, é irresistível, como faz para tê-lo assim, Eu não faço nada, nem treino pernas, a energia chega-me apenas para caminhar ou treinar braços, Estou a ver, ainda assim vamos mordê-lo um pouco.
De perna frágil e vontade genuína se fez a minha viagem à drogaria da avenida. Em que posso ajudar, começou a senhora, Bom dia, vende garrafões e marijuana, Não vendemos, meu anjo, terá associado o nome do nosso estabelecimento àquilo que ele alude mais claramente, mas o Estado não permite que comercializemos isso, poderei facilitar-lhe um maço de tabaco, Deixe estar, não estou interessado, é que eu ia viajar, Mais uma razão para não adquirir substâncias psicoativas, Tem razão, e ortogonal a isso, não sou anjo de modo algum, a menos que me providencie asas brancas, Também não temos. Troca produtiva, satisfez-me ao ponto de me haver quase olvidado do meu objetivo primeiro, que me regressa ao pensamento e explano com Na verdade, eu queria adquirir veneno para formigas, Outra vez, o senhor não se tinha livrado delas quer-me parecer que há um ano, Eu tinha, mas elas voltaram, para mal dos meus pecados, Voltaram do nada, Não voltaram do nada, a tempos, apareciam uma ou duas na cozinha, mas agora forma-se de novo uma legião, Eu compreendo, leve lá este veneno fabuloso, Agradeço-lhe muito.
Mas olhe, o rótulo diz Veneno de Formiga, elas não poderão ler isto e fugir, Que tontaria, Está a assumir qualidades de formiga, Estou certa de que não sabem ler, Como tem certeza, falou com elas, Falei, sim, eu sou domadora de formigas, para lhe ser franca, elas não morrem, o veneno é um sinal para a rainha, enfartada de migalhas de pão, ordenar a migração das suas para minha casa, onde as crio com carinho.