Super Pop

O objetivo de se celebrar um aniversário é em idade adulta o mesmo de um casamento: gastar-se dinheiro, a fim de atrair um círculo que se quer alargado de pessoas do passado e do presente, para ali, circunscritos a um espaço curado por umas horas desimpedidas, se possa comer e beber e asseverar que, apesar de tudo, ainda não estamos sozinhos, a vida ainda faz sentido ser vivida, isto e aqueloutro. Ó, tu aí!, vai ali falar com os meus amigos do ciclo, que estás com má cara.

Naturalmente, nada disto é trivial. Vim para aqui convidado por um amigo, o aniversariante, de quem eu gosto tanto, mas com cujo círculo de amizades e inimizades me incompatibilizei, e não cheguei ainda à conclusão do que fazer com as mãos. É uma escalada de nervos. Há bocado, propus-lhe sairmos um pouco, e os dois caminharmos à volta do quarteirão para apanhar ar fresco, falarmos. Ele recusou; disse que era falta de consideração para com todos os outros. Não tive como rebater. Envolvido pela ideia, e tendo visto animais à chegada, de manhã, peguei numa mão de guloseimas e coloquei-as num copo, para dar aos cães e aos gatos. Agachei-me, como é aceitável com animais, esses, recetores legítimos do nosso carinho destilado, tanto os cães como os gatos acederam, felicíssimos; acontece que enquanto os cães, depois, se regozijaram, latir calmo, os gatos caíram para um lado, depois de lamberem o copo, ainda com um travo a detergente; eu deitei as mãos à cabeça imaginando que seria da minha vida sem o ronronar dos gatos no meu colo ou suas afáveis cabeçadas nas minhas pernas.