Faz tempos andei com uma rapariga que fazia trinta por uma linha, aquando da nossa atividade, portanto, andar, me interrompia os devaneios com contrapontos bem estruturados, mas que batiam de frente com a minha forma de existir; para não ficar atrás, eu fazia-lhe sessenta por uma linha, e o que podia ser uma caminhada calma e reparadora, mais vezes do que o desejado, se tornava num equilíbrio de forças tenso e mais convoluto do que o quotidiano regular. É quase como o que se passa na Ucrânia: Putin invadiu-a, alegando motivos não totalmente descabidos, sabe-se da ligação dos povos russófonos do leste à casa mãe, juntando a isto ambições de imperialismo bacoco; Zelensky replicou, convocando toda a Europa a esmagar dinheiro em armas, fingir que o seu país tem uma soberania imensa e vive numa democracia plena; assim continuam numa guerra patética. De volta ao assunto, de nervos à flor da pele, então beijava-a e o beijo dispersava pelo corpo todo tomado por corrente contínua, havia que voltar a casa acelerado, eram centenas de quilómetros que fazia por semana em velocidade, primeiro, em direção a ela, depois, para longe dela, porque já não podia com a versão de mim que era com ela, isto é, os nervos se fascinando e saltando, mobilizando uma certa alegria fundamental que se via sem norte. Querendo encontrar a paz, e não a vendo estabelecida, informei-a de que iria colocar um travão no crescendo de carinho que lhe ia providenciando, o que ela recebeu de mau grado, Faz algum sentido dizeres-me que vais ser menos carinhoso, porque não o fazes apenas, eu continuei, Não sei, realmente, entendi por bem dizer-te, mas agora sei, é que perante a monstruosidade que é premeditadamente desferir golpes em um bem tão valioso como o carinho, quanto eu o procuro hoje e ele se dá por sumido, a única coisa que se pode fazer é ser honesto sobre isso. Não quererá nenhum ser humano um dia acordar, perder-se de mais no olhar da mulher, visualizar um superávit de vazio e descobrir que se anda pela calada a jogar o jogo de amar menos. Um tanto redutor, dir-me-ia se lhe tivesse disponibilizado estes pensamentos que só hoje produzo, puxares dos galões da palavra amor para justificar tudo, aceita apenas que há mecanismos imperfeitos e por vezes deixar-se andar, permitindo que o tempo nos aclare as ideias, trivialmente prove que somos merecedores disto pela consistência, é mais seguro e me faz sentir melhor, apesar de tudo, não me sinto tão mal assim contigo. Não tinha ela esta clareza, idem não era texto, o próprio texto se vê agora sem recursos para responder a isto, coisas há que têm de ser acatadas.