Está feita a análise: uma queria plenitude, a seguinte segurança, a que lhe sucedeu mundo, a outra natureza, mas com tudo isto, quando talhado em pedra, é impossível coadunar; não é que sejam maus valores, a questão é que para quem quer Casa se tornam secundários, ainda que desejáveis e respeitáveis. Porém, está visto que o errado sou eu, quem quer Casa é carregado nas ruas, independentemente de se achar bem ou mal que se reclame um bem que se tem já, deve preocupar-nos, escrevo para lá das analogias, que levar a cabo o projeto de existir seja a cada dia que passa um sonho mais longínquo. Não pedimos para nascer, mas claramente temos de pedir para viver; os recursos existem, sugados pelo experimentalismo, o passa-culpas, a irrequietação, é realmente uma tragédia, que não saibamos ainda como viver.
Conhecemo-nos em Sanxenxo. Caso de amor à segunda vista, precisamente a comecei amando quando, deixado a sós no areal, falávamos sobre o mar beijado pela estátua-sereia e como o infinito permeia a vida como pai que existe mas permanentemente ausente. Ansiava a noite agrilhoado a ela para levarmos a conversa da varanda para a cama e lhe colocarmos mais oito horas em cima, oxalá pudéssemos ali alcançar alguma conclusão concreta e então não nos levantarmos pois estávamos deitados em resposta.
A conexão assente na fala acabou por escalar. No último dia da viagem, mil nueve e tortilha na esplanada costeira, ela propôs Quero ir contigo para o Porto e rasgou-me um sorriso de ponta a ponta. Claro que sim, meu amor, é tudo o que mais quero. Pelo caminho, troçávamos a sinalização vertical pós-túnel, os afamados sinais-dúvida, em vez de Senhor condutor, desligue os médios, deixam em si plasmados, Senhor condutor, será que desativou as luzes de cruzamento, é uma dúvida que nos aterroriza, se puder, deixe, na linguagem de sinal, um ou outro desenho claro ao longe, na nossa caixa de correio, a resposta, isto confortar-nos-á por um tempo, até que outro veículo passe e nós, pela ausência de visão, tenhamos de indagar-nos do mesmo modo. Passamos Tui, Valença, Viana, Braga e então desembocamos na linda invicta.
Certo dia lanchávamos no Café Ceuta quando, vez singular, não tínhamos nada que dizer um ao outro, o que acabou por findar, Meu amor, não posso mais estar contigo, Que me dizes, Digo-te isso mesmo, eu creio que a nossa vida aqui provou que não somos compatíveis, sinto-me emocionalmente débil, longe das minhas raízes, não te culpo pela tua incapacidade de me consolares, apenas não me consegues fazer feliz. Dito e feito. Era já homem o suficiente para acatar declarações destas e avançar diretamente para o luto, não podia a galega deixar-me no mais escuro dos lugares por minha conivência.
Não tardaram três dias para que a tal menina emigrada mudasse de ideias, combinou comigo um café no café, no Ceuta estaríamos à hora do costume. Na hora do costume ela acabou por não aparecer; entretanto outra rapariga, a sós, sentou-se na minha mesa para trabalhar, pôs-se a chorar com o seu MacBook em frente, som de choro confundido com a flashada no longínquo, os paparazzi registavam o momento, o que a assustou, largou a minha mão enfim lá colocada para apoio emocional e desatou para fora do estabelecimento, deixando o portátil a meu cargo.
Leio pouco, e leio pouco jornais. Contudo ao largo da Praça dos Poveiros atentei no Jornal de Notícias e nas garrafais Princesa de Sanxenxo de volta a casa, debate público hoje pela tarde. Mas qual debate, qual princesa, questionei-me em ligeiro pânico, tenho de ir a isto, meu senhor Patrão, hoje estou muito doente, pôs-me disfuncional o amor e a ansiedade. Acontece que a princesa de Sanxenxo, dizia o analista, painelista do corrente, desejosa de paz, do genuíno, do terreno, se foi envolver com um rapaz português, ele já habituado a grandes palacetes e desejoso de adendar o passado com o sonho dialogal em pano de fundo. Eu ri-me, os meus amigos presentes de surpresa riram-se também, riso cínico e com seu quê de desespero, a minha caracterização era tão forçada, despojada de qualquer sensibilidade para com a literaturização das coisas e, por último mas mais relevante, o facto de eu não saber que a minha amada era da realeza.
Na trigésima, sabe deus, vez que o meu telefone tocou a meio de um dia, estava já tão imemorável o trabalho e ainda tinha de a repetida chamada tornar este dia mais semelhante ao anterior, decido atender, Estou absolutamente desesperada, ligo-te de seis em seis horas há mais de uma semana, Perdoa-me, que não costumo atender números desconhecidos, Eu quero o meu portátil de volta, Está ele desde que me começaste então a ligar nos perdidos e achados da faculdade, Enfim boas notícias, Desculpa a confusão do outro dia, Estás desculpado, Pergunto-me se gostarias de dar continuidade à conversa, Vou pensar e podemos eventualmente conversar sobre isso.