Mentiras bonitas / Acabar com o sofrimento

O que dizem sobre mim pouco me importa, a causalidade, temporalidade e ultimamente finalidade das coisas que faço são coisas que só a mim dizem respeito, e mesmo a mim, tendo-se passado tanto tempo, se vão esvaindo da memória, num golpe organizado pelo mesmo fenómeno que pulveriza as calçadas de magia, o esquecimento, em todo o seu esplendor. Talvez, se se preocupassem consigo próprios, atendendo às razões pelas quais se interessaram pela minha vida em primeiro lugar, haveriam descoberto tanto sobre si, desde Tenho inveja de X até Sou tão melhor por Y, e por isto é bom faltar à verdade. A mentir, inventem mentiras bonitas, como Comi um gelado e que bem me soube, O sol acordou com uma certa vaidade, Tu e eu somos um baluarte, querem saber como, perguntem a um escritor.


Não cheguei a perceber, confessou-me o meu amigo na esplanada há uns anos, que foi feito de ti no último ano, Amei alguém, Disso estou informado, mas sabes a que me refiro, às tuas ausências, tu tens uma certa energia de que não é fácil abrir mão, Sabe bem ouvir isso, mas não esteve tudo ao meu alcance, infelizmente, ficaram claras as minhas limitações, Afinal, que te disse ela, para te deixar assim, nunca te vi de tal modo, Queria acabar comigo, Acabar, como, espécie de luta livre encenada de domingo, Cala-te, que o assunto é sério, E depois, que aconteceu, Ela queria acabar comigo, E depois, Ela queria acabar comigo, E depois, Ela queria acabar comigo, Não posso mais com isso, afinal, de tanto o repetir, já não sei se queria acabar contigo ou com outra coisa qualquer, Pois eu sei, Perdão, Queria acabar com o sofrimento.