Da primeira vez que a vi na boîte, lhe ofereci o meu sofá, não esperava que com esta velocidade evoluíssemos para o quarto. Assim se deu, meia dúzia de dias depois, ia tentando adormecer, quando a menina insónia me entrou pelo quarto adentro exclamando arranja um espaço para mim, que hoje ter-me-ás também. Isto não foi perturbador, porque ela era linda de morrer, mas que fique registado que pensei, se não estivesse enamorado, eu acharia isto muito estranho. Dormir com ela era todo um conceito: eu não dormia realmente, apenas fazíamos concha, eu pequena, ela grande, eu grande, ela pequena, um luxo, ter alturas semelhantes, falávamos do sentido e da vida e das coisas e ficava tão feliz que às vezes, no metro, para não desrespeitar as pessoas comuns, naturalmente mais infelizes, e não passar a viagem a sorrir, pensava nas guerras do oriente, nos pobres da rua, no aquecimento global. Aplicava o mesmo procedimento para me desfazer da excitação que ela me provocava. Ela era a rapariga mais previsível com quem já tinha estado, todas as noites, podia contar com ela. Chegava ali pelas 23h05, 23h10, este pequeno atraso me excitava também, se fosse pelas 23h02, seria parvo, impreciso, pelas 23h15, desrespeitoso, agora aparecendo com entre 5 a 10 minutos de atraso, fazia-me sentir de tal maneira, começava sentindo que não vinha e o paraíso findava naquele dia mesmo, depois ela aparecia e saltava para cima dela. E falávamos, envolvíamo-nos. Depois ela adormecia, e eu pensava nela. A meio da noite, ela dormia profundamente, virava-me para trás, beijava seus lábios carnudos como que dizendo de momento só posso pensar em ter-te, dormir está fora de questão, ao que ela respondia, eu gosto mesmo muito de ti, mas temos de acabar com isto, de manhã há mais. A verdade é que de manhã ela desaparecia, sempre me foi frontal sobre isto, dizia que ia para outro continente, voltava pela noite. Não há que pensar de mais sobre isto, deixava-me, foca-te no teu dia. No meu dia eu adormecia, claro, de não dormir pensando nela, disto ela se olvidava constantemente. Ao meu terapeuta dizia, estou a viver um grande amor, mas não posso dormir, O meu caro terá já considerado que o que considera um grande amor é na verdade uma montanha russa de emoções pouco saudáveis, essa exaltação com os atrasos é no mínimo caricata, eu surpreendido repliquei, Eu é que sei, eu é que sei o que sinto, para além do mais, eu pago-lhe sessenta euros por semana para me fazer sentir bem, não para me confrontar, Tem razão, como se tem sentido, Bem, e você, doutor, Olhe, bem, a minha filha vai agora para o colégio Sei Lá Onde É, E onde é esse colégio, O Sei Lá Onde É, Sim, Sei lá onde é, Já lhe disse que sim, o senhor é de compreensão lenta, ficamos assim nisto, até de manhã.