Loucamente, escrevo

De poucas coisas estou certo, uma é que de momento, numa casa de centro de cidade, num apartamento de periferia, numa vivenda de campo, num parque vizinho de uma praia, uma rapariga diz ao melhor amigo que sonha com ela há meses que hoje o viu de forma diferente, um homem retrata a mulher da sua vida, o filho conta de si ao pai emigrado, uma enfermeira chora os velhos que viu morrer nas suas mãos, o terapeuta o paciente que julga irremediavelmente perdido, dois amantes por que o momento não os deixou viver juntos. Fazem-no do jeito possível, através da escrita, veículo único para o indizível, procedimento singular para se fotografar o coração sem ensaguentar a câmara e perfurar as artérias no caminho. Para chegar àqueles a que não posso, que não conheço, que não tive a arte para conhecer, que conhecerei, preservar este fim de tarde com gostinho de outono, céu com travo a esperança, escrevo. Loucamente, escrevo.