Compreende-se que os hospitais tenham limitações, se se lhes chega com uma dor no peito, um mal-estar generalizado desde a barriga, nos encaminham prontamente, Meu senhor, tem à sua disposição uma bela ambulância para o transportar para Penafiel, ou Meu caro, o São João servi-lo-á com todo o gosto. Não obstante, quando me apresentei nas urgências com uma faca na barriga, não tiveram outra opção que não dirigir-me para a pequena zona operatória.
Estando o assunto do sangue vazante mais ou menos controlado, e a faca a estancar eventuais outros problemas — os meus cumprimentos ao assaltante que zelou pela minha saúde —, marcou-se cirurgia para o dia que se seguiria. Procedimento de alto gabarito, dispensaria a colocação de costura, integrando a faca na fisionomia do corpo, caso para dizer, paciente homem de ferro. O que se sucedeu foi trágico: aborrecido, internado ao longo de horas, comecei a brincar com a faca na barriga; em três tempos jorrava de sangue; aos gritos e pressionando desalmadamente contra o abdómen levaram-me na cama de urgência para o corredor, gritaram pelo médico disponível, que com a agulha disse, Mantenha a calma, coseu a enorme ferida o mais rápido que podia, me mandou para casa, Com o procedimento planeado, em seis semanas poderia voltar a correr, como decidiu colocar-se em risco, agora apenas daqui a dois anos.
No dia seguinte, acordei em casa com um cabo na boca. Pelo que consegui perceber, nestes procedimentos feitos de urgência, para garantir que a costura não se desfaz, tem de se passar um cabo no meio do corpo e pelo sistema respiratório, em laço, eventualmente findando na ferida.