Estado de emergência / Um desejo narcísico

Aconteceu que após nos beijarmos, desta vez algo diferente, precipitou-se-me uma vontade fulgurante de te requisitar para a vida que aí vinha depois do verão, o outono, o inverno, a primavera, por aí em diante, assinar ali um contrato, abdico de outras mulheres, abdico disto, abdico daquilo, para estar contigo, vivo nos teus braços e nos teus cabelos… Tu não respondeste no imediato mas enquanto esperava e me equilibrava na corda bamba revisitava o que me estava a acontecer, quanto ar aspirava agora ao respirar, a responsabilidade que seria construir algo real e duradouro, deixar as máscaras em casa, magoar-me de novo… Tu continuavas sem responder e eu vi laivos do paraíso no teu rosto, ter-se-ia deus equivocado e direcionado os trabalhos de expansão para bem longe de si… Nos abraçamos, mas vais-me matando com o silêncio… O silêncio mata mais que mil lanças, e o meu corpo decreta estado de emergência.


Ao ponto em que nos encontramos, o que eu desejo é puramente narcísico, não faz sentido e está estudado, esta coisa de querer a reconciliação com os passados idos e suprimidos, sonhar com viver as vidas todas, inclusive com as que deixam claro, isto não é para ti, tu não és homem para isto. Sobre a questão de podermos ser holisticamente carinhosos: é um artifício, o que se quer holístico é conhecimento e a compreensão, por uma vez só que seja, no futuro. Pelo menos, é o que me dizem.