Se me encarregasse de lecionar língua portuguesa, ou pelo menos a secção de literatura — outrora, havia cursos cuja disciplina em que se lia se apelidava, corretamente, de literatura —, e me encontrasse num dia criativo, com menos vontade de regurgitar tópicos e mais de edificar estruturas verdadeiras no repertório mental dos alunos, quereria abordar o assunto da analepse da seguinte forma: técnica sublime para formação de personagens, descobrindo-se o seu passado à medida que este é relevante para compreender o presente, de outra forma somente apanhado de decisões amargas e desconfortáveis, num processo em que aquelas se veem num universo distinto, agentes com outras obrigações, boas e más, a bem ver também não eram totalmente felizes, apenas tinham o seu eixo ético assente noutro referencial. Após estas considerações, diria mais simplesmente, antigamente, podiam adquirir-se croissants mistos no bar da escola por vinte e nove cêntimos; isto aparecendo num livro, rapidamente, o leitor ver-se-ia transportado para o secundário, viveria a venda dos seus resumos, as tardes matando as horas no café, descontinuando os pensamentos que procurassem dar corpo às matérias de foro individual onde havia impotência, ou aos questionamentos relativos à necessidade de ascender, na totalidade, enquanto ser de hábitos, para ser de hábitos em conjunto, adaptado porquanto experimenta, em acúmulo de sonhos de banda larga, queira o futuro demonstrar que o sonho em profundidade é desinspirado e uma terrível forma de investir.
Naquele lugar de preços baixos, sabe bem pagar tão pouco, a taxa de esforço de um indivíduo comum para um croissant rondava os 0.05%, hoje rondará os 0.3% — fazendo as contas, um lanche agradável por dia é o suficiente para esgotar boa parte das finanças, caso para inaugurar a expressão viver a croissant e água —, ninguém imaginaria, meia dúzia de anos depois, notar, nos arredores do monte Inari, em Kyoto, que uma água no topo da montanha, depois de se ter ultrapassado uma série interminável de escadas rodeadas de torii, bem-ditos sejam os santuários xintoístas, verdadeiramente integrados e calmos, em contraste com as nossas igrejas ostentativas e geladas, custaria o quádruplo do que na base. De todo modo, não precisamos de hidratação, precisamos de descanso e ar puro; chegou-me aos ouvidos um extraordinário ex-líbris da cidade, futebol misto não em sexo, mas em capacidade motora. Exaustos, mas curiosos, assistimos pasmados ao fenómeno: num relvado comum, os jogadores aptos coexistiam com os jogadores inaptos, e, surpreendentemente, estes últimos eram os autores dos golos mais espetaculares. Acima no estádio, uma televisão suspensa por cordas mostrava uma versão miniaturizada do jogo, onde aqueles se moviam em passos discretos de três ou quatro polegadas, arrastados pelas máquinas de apoio, enquanto os ditos normais faziam um movimento contínuo e muitas vezes descoordenado ou de explosão, num jogo que requer consistência e stamina antes de tudo o resto. Pus-me a refletir se eram todos bem alimentados ou se, depois de orar, se limitariam a comer um croissant, resultando num evidente défice calórico.