A rapariga dourada (invisibilidade)

Ao final de tarde de domingo, como se não bastasse a pressão de ter de se ser útil no dia posterior, fica-se de queixo caído quando esta rapariga está na sala, linda como mil oceanos e o sol, dourada também na forma como fala, mas estamos na Alemanha; o coração não sente o que os olhos não veem, pelo que para evitar vazios, evitamos materializar as ideias. A decisão estava tomada, quando ela atalhou, Logo, espero-te em minha casa, antes de voltares ao Porto, A viagem de carro é longa, mas lá estarei, o que não se verificou, tal foi o cansaço que se apoderou do meu corpo, aquando dessa hora, só pude adormecer, não porque me esqueci do que tinha prometido, mas porque a prioridade era mesmo poder suportar-me a curto prazo. De situações como esta é feita a realidade, não de esquecimentos, realizações, mas de escolhas, e eu estava disposto a ser franco quanto à minha, ao passo que no dia seguinte recebo, Fiquei triste por não teres vindo ontem, mas passa aqui antes de partires, com uma ressalva, por favor, traz-me algo especial, quero que estejas com os meus pais, que os surpreendas com uma surpresa que para mim não é surpresa mas é surpresa o suficiente para quem quer ser surpreendido.

Quando cheguei, não tinha presente nenhum nas mãos; tinha jurado que não obstante as dúvidas havia tratado disto; os seus pais olharam-me de frente, eu tirei um tablet do bolso, esperando um qualquer milagre, li O senhor Cláudio encontra-se a preparar um truque de magia, em 30, 29, 28, Vou fazer um truque de magia, anunciei, todos jubilaram, aos zero o tablet tornou-se invisível ainda que discriminável pelo seu peso, a satisfação gregária tomou conta do espaço. Missão cumprida, coloquei-me na estrada, mas não sem antes a rapariga dourada me sussurrar ao ouvido, Foi agradável, mas eu sei que usaste um modelo largo de linguagem, paralisando-me.