I.
Deixei pela manhã entrar um homem em casa de sobretudo comprido, poucas falas, pôs-se aqui como se cumprisse a missão mais importante da sua vida, porquanto não se deteve a explicar nada, apenas me deixou que queria analisar a minha habitação, era absolutamente essencial que o fizesse, e — jurou pela sua família — se eu o permitisse, sem colocar entraves ou pedir esclarecimentos, a minha vida rodopiaria, feita bailarina, elegante e sem dor; eu nunca me havia prendido com a corporalidade da vida, pelas regras da língua portuguesa, seria uma mulher, agora, pouco claro fica o que faria, como se apresentaria, se esguia e delicada, ou firme e obstinada, ou finalmente uma personagem disforme, derrotada por si mesma, aquela que tentou dar tudo de si a todos, e acabou torturada, esmagada, entorpecida, nem presente nem ausente, apenas existindo até a morte. Admitindo que seria uma das duas primeiras, o que este homem me prometia, muito simplesmente, foi algo que não pude recusar.
A sua postura dentro de casa, porém, não esteve ao gabarito da forma com que me abordou e que lhe permitiu entrar. Cheirou todos os cantos, procurou alçapões escondidos, como se eu fosse um delinquente ou um bruxo. A única magia que fiz foi fazer aparecer a fé de nele acreditar, e a única delinquência, salvo raras exceções, é aparente, vem sob forma de pintura, as pinturas que os meus piores inimigos fazem nos portões, basta sairmos para a baixa, pedirmos um fino ou tomarmos um elétrico para um agradável giro, que os malandros atacam, equipados com sprays, de variadas cores, quero querer, também variadas intenções e espiritualidades, só assim faz sentido ser delinquente. Darei de barato: se me grafitam o património, fá-lo-ão por deleite, dor ou estética, que são condições humanas, necessárias e fundamentais, desde o marginalizado, até ao empresário com capital estrangeiro injetado. Isto o homem terá de compreender, ou pelo menos aceitar, se pretende avançar com o processo mítico misterioso que me propõe. Ia-me debatendo com isto, quando, à porta, surgiu um pelotão de homens e mulheres e crianças furiosas, atirando pedras para as janelas, gritando, numa euforia e violência que acordou os vizinhos, alguns ainda a sonhar sonhos pesados, outros simplesmente dormindo, Abre, Abre, Abre, Já vai, retorqui assustado, Abre, Abre, Viemos por bem, Aguardem pelo menos que me desloque à porta, tenham respeito, Somos as gentes mais respeitosas que vai conhecer, continuaram, jogando mais pedras, Por favor, tenham calma. Abri-lhes a porta e corri para trás, procurando a escolta dos meus colegas de casa, que, do nada, se encontravam sumidos, estava por minha conta, contudo rapidamente percebi que, pelo menos num plano físico, não estaria em perigo.
Na ausência de aromas anti-culto, e de alçapões secretos para que pudesse escapar, os invasores tranquilizaram-se e explanaram que vinham da zona de Torres Vedras, de baixo para cima sonhavam conquistar um pouco mais de espaço na sociedade, ou melhor dizendo, fundar uma sociedade nova através da sociedade atual e insuficiente. A premissa é simples e dói menos do que parece. Ouça-me com atenção, sem preconceitos, o nosso emissário concluiu que a sua casa é segura para nós, como tal, estou em condições de lhe propor pertencer à nossa legião, Que legião, que engodo me vende, Não é engodo nenhum, em três tempos estará mais feliz e em perfeita sintonia connosco. Nisto, o indivíduo porta-voz retirou do bolso um cabo Ethernet, de alguns metros, de ponta única, e continuou, A transferência dos dados necessários para que se conecte devidamente a nós faz-se pelo traseiro, O senhor enlouqueceu de vez, Não enlouqueci, louco é o senhor, agora ouça-me, vocês humanos já usufruem dos benefícios dos supositórios da mesma forma, esta é a forma mais eficaz de transferir dados biologicamente, Porque não pela boca, Repare, a boca está já sobrecarregada com as palermices que proferem, as invenções que comem sob pretexto de agradarem às papilas, isto tem de ser mesmo assim. Não sei precisar se, a partir deste ponto, o sentimento que me dominava era o terror ou uma vontade crescente de rir às gargalhadas. Fiquemos por isto: ri-me a medo, que é o mesmo que a minha antiga espécie humana — até este acontecimento — tende a fazer na falta de melhores ideias como reação a uma miríade de eventos comuns. Um detalhe, prosseguiu, Terá de introduzir o conector pelo lado mais largo, se reparar, este não é um cubo, mas sim, ligeiramente, um paralelepípedo, e o nosso protocolo funciona deste jeito, A União Europeia não forçou suas excelências a migrar para um conector reversível, Não, senhor, nós somos um grupo relativamente nicho, agora cale-se lá, que de falas inúteis está o mundo cheio e parece-me que está a contribuir para o agravamento dessa situação, Tem razão, Vamos lá. Assim, introduzi o cabo Ethernet em mim, este emergiu pelo corpo acima e veio dar à boca, por onde saiu, regressando à minha mão, limpo, num processo indolor, rápido e mais proveitoso do que eu, à época, conseguia visualizar.
II.
Ao passo que me invadiam a casa, que é o mesmo que dizer que se instalavam, na garagem, na sala, na cozinha, arrumavam as panelas onde queriam, longe de onde eu as tinha, estendiam as mantas e os cobertores no sofá, que bem precisava este sofá de umas mantas e almofadas e as janelas de cortinas, cortinas não trouxeram eles, sentei-me na esquina com o cabo na mão. Hora de praticar, fazia-se ouvir em tempos, fazia-se ouvir agora também, pegamos todos nos nossos cabos individuais, que religiosamente guardávamos nos bolsos, e repetíamos o ato da transferência, em nós, no outro. Assim se garantia a permanente conexão, a total eficiência, as pessoas falavam mais até para enxutar o silêncio, abriam as portas para garantir que o fechamento não se poderia sentir bem recebido, desligavam a rádio para ter a certeza de que se conheciam e mantinham empatia, conceito abstrato virado concreto neste espaço conquistado, incubadora de inovação pós-humana.
Além do evidente prazer que é transferir dados, como é lógico, havia uma vontade coletiva de participar noutras atividades. No corredor longo da cozinha aos quartos passávamos tardes a jogar por rede local, em computadores saídos praticamente dos anos noventa, isto é, estações com teclados brancos, monitores cúbicos e de baixa resolução mas muita diversão. No ecrã, enquanto os círculos e as elipses se sobrepõem, estilo eclipse solar, e depois se esvanecem, está na verdade a transmitir-se uma luta de elevada intensidade entre mim e o sujeito gordo Tiago, a alguns metros na sua estação, tentando tocar nas formas certas para tocar a música mais bela, no tempo certo, antes que fujam como toupeiras, desafinem como nós no banho, e para que possamos dizer diante da comunidade, Sou o campeão do jogo das formas musicais. Naturalmente, eu não o pude dizer, porquanto era novato, e Tiago era um verdadeiro cidadão da legião; bastava atentar-se na precisão com que empurrava as formas para dentro do ecrã, a melodia tão bela que as colunas do respetivo computador passavam; no fim, eu fiz cem pontos e ele mil, ficou claro que sou dez vezes menos capaz do que ele, mas estava a tentar, e isto era o suficiente. Ele sabia das minhas dores, porque éramos um. No final do jogo, dirigiu-se-me com a mente, Sei o quão queres ser melhor nisto, mas num misto de ânsia, irreverência e novidade, foste uma nulidade, Prometo que vou melhorar, Eu sei que vais, agora vem jantar, temos uma iguaria pronta hoje.
Não obstante a confiança de que parecem ser donos os membros da legião, pelo descrito até ao momento, algumas coisas havia que sabíamos que não fazíamos da melhor forma, áreas em que era impossível obter destaque, uma delas era a cozinha, lembrava o cozinheiro, Não somos mestres na gastronomia, mas a partir do meu conhecimento, terão as bases para se desenvolverem, razão pela qual organizava um workshop. Sistema redundante em virtude da sabida partilha permanente de consciência, evento portanto social e de reforço, foi um êxito; não havia galinha que se mostrasse relutante à morte se lhe dissessem que seria preparada e degustada pela Legião de Torres Vedras instalada no centro da cidade onde se passa este texto. De insegurança se fez arte e no dia seguinte a capa de jornal foi nada mais nada menos que Cozinheiro da Legião de Torres Vedras vencedor de prémio internacional de disseminação de conhecimentos de cozinha, o bom manuseamento de fornos, a sensibilidade para a compra do azeite certo. Diz-nos a nossa faceta omnipresente que as gentes utilizadoras de supermercado passaram a adquirir Azeite de Torres Vedras, seus pratos se mantinham gordurosos, mas muito mais saborosos, em cada casa se rogava, quando tiver um tempo, quiser comer bem e regalar-me, deus queira, deslocar-me-ei a Torres Vedras.
Pela noite quando me deitava no quarto partilhado mas era o único acordado surgiam no céu barras de navegação do novo mundo, a que apontava com o meu braço renovado, e que tinham como colocar-me em estados de transe diferentes. Sublinhados a amarelo, como quem pode e é irreverente, os botões sorriam e despoletavam sonhos passados em lugares distantes, calmos, diferentes, envolventes, as grandes montanhas onde se está sozinho mas nunca a sós, numa viagem que é fictícia mas plenamente sentida, tal era a eficácia do mecanismo de conjugação de mentes voltadas para o infinito. Dava por mim só olhando os botões e sonhando com o sonho, com o mundo todo para mim, requisitando-me sem um prazo, os meus pês de prepotente, pedântico tornavam-se pês de poderoso, presente, os ares de montanha reescreviam-me o cerne na passagem.
III.
O grande entrave para a disseminação ou escalada de relevância de comunidades como a legião que tratamos é o seu desfasamento com a realidade, ou pelo menos o isolamento a que os membros têm de se dar, de um jeito libertados do sofrimento coletivo que é comunicar às escuras, mas sentido a dor que é não sentir a dor que a maioria sente, ter sensibilidade a tanta luz, na ordem e no progresso que é o desenvolvimento planeado em proximidade e com amor, urge a apetência para o caos, essa criatura sexy e dona do mundo. De tanta luz que corria pela minha alma, parecia um holofote, sentia-me progressivamente mais tonto, desligado, tinha-me olvidado do asfalto e da noite escura, pelo que me restava a distimia quase depressão. Um momento encontrava-me a sós praticando a transferência de dados quando o senhor gordo Tiago se aproximou um pouco, notando o meu desligamento, Por que te encontras assim, quando aqui tens tanto, Tenho saudades do mundo, de ter problemas para resolver, Curioso o que dizes, admites que não temos problemas, Porque teriam, se tudo está solucionado, são todos um em funcionamento estável, síncrono e perfeito, Pela razão que acabaste de referir, Nós éramos humanos como tu e o passado não se esquece, para uns mais que outros, mas todos um pouco também tanto nos pomos a lamentar a perda desse passado turbulento, Desta não estava à espera, O que prova que o protocolo tem falhas, Temos tanto a melhorar, Sim, e não desistimos, mas para casos como o teu, é necessária distância, Distância, Sim, é necessário que te afastes da legião um tanto, no meu caso, costumo dirigir-me a Fátima para fingir que oro, agora mais longe ainda não decidi onde me pretendo retirar, mas no teu caso, fá-lo-ás uma vez por ano, em grande estilo, Conta-me mais, Partirás rapidamente para uma zona de litoral sossegada, com três ou quatro companheiros, e aí te deterás, sem acesso a nós, comendo mexilhão e bebendo bom vinho, depois regressarás em grande, E não temes que esta experiência me faça não querer regressar, Pelo contrário, esta experiência fará com que valorizes a tua vida aqui, de uma certa forma, ganharás apreço pelas duas roupagens da existência, e serás um homem diversificado, e diversificadas foram as minhas sensações, quando abracei o Tiago e me recolhi ao quarto, sonhando com mar, mexilhão, ostra, asfalto, tarde de domingo em que se pode estar lá mas também se regressa.