A descoberta II

Porque me haviam sugado a voz, ou pressionado a um ponto que estaria prestes a perdê-la, e me vinha sentindo fora de mim, experienciador de momentos extra-corpo — caminhando na rua, não via a rua, mas Neil Armstrong na lua —, remeti para os hospitais da zona um pedido de consulta com carácter de urgência, e ainda que fosse sábado esperei poder ser atendido ainda no próprio dia. Para minha surpresa mas surpresa de nenhum leitor, os médicos estão tão cansados e não há dinheiro que lhes colmate a falta de paz, não obtive sequer resposta, positiva ou negativa, e tendo-se precipitado uma série de ânsias, resolvi deslocar-me à urgência.

Na urgência, tão bela, beirando o Douro e a estátua de Camilo, pulseira verde no pulso, após algumas horas examinaram-me mais ou menos holisticamente. Nos sentidos, vieram ineficiências cuja relevância não justificava ação, a massa cinzenta aparentava saudável no ecrã ainda preto e branco, a tensão alta mas razoável, até que, abrindo a boca, me notaram problemas na garganta. Isto era coerente com as minhas suspeitas, desejei ali que alguém pudesse visualizar o sorriso rasgado na minha face quando recebi o diagnóstico. Quando o senhor médico continuou, Será conveniente que seja operado, para que lhe removam o nucleoide dos problemas, fiquei verdadeiramente em êxtase, era eu, hospital e natureza, entidade única.

Por esta altura vinha perdendo ou investindo algum tempo num jogo de bicicletas num oásis no deserto. A premissa era simples, na tua bicicleta, pedalavas aos círculos e aos círculos percorrias a vila, e a cada pedalada, criavas pedalada nas crianças, alegres fazendo castelos de areia, e mantinhas o teu estatuto de bom cidadão junto da autoridade central de oásis em desertos. Apareciam diamantes megalómanos no céu, mais cinquenta pontos, sempre que perfazia uma volta. Quando jogava, com o microfone junto à boca, ninguém tinha dificuldade em ouvir-me, e eu mesmo imaginava estradas em vez de Neil Armstrong e a lua. Foi num dos dias em que passei a tarde jogando que fui informado, será intervencionado amanhã, por favor, se não lhe for demasiado incómodo, desloque-se ao hospital pelas nove da manhã.

O médico e a assistente — esta história não pretende ser normativa, foi assim que se passou na realidade — conferenciavam aos risinhos, havia de existir ali uma ou outra tensão romântica, mas se é verdade que se encontravam distraídos, estavam tão felizes quanto distraídos, o que, por sinal, não é mau de todo, sabe-se que os grandes desastres advêm mais vezes da infelicidade do que da distração per se. Perguntaram-me se preferia anestesia local ou geral, ao que respondi, naturalmente, geral, para que pudesse dormir sem assistir à minha própria reconfiguração e às mil e uma maneiras de esta correr menos bem do que o desejado, mas ao dizer-se isto, a assistente fez a adenda, não temos anestesia suficiente para o colocar a dormir totalmente, iremos anestesiar apenas a zona da garganta, de todo modo, isto ser-lhe-á positivo, poderá observar a técnica e sem qualquer sensação física na zona da intervenção. Assim que anestesiado, o médico com o seu bisturi golpeou-me no braço, desde a zona do bícep, seguiu para o ombro sempre de bisturi penetrado dentro da pele, abriu um quadrado considerável na garganta, e disse entretanto à rapariga, Sabes o que acho das relações, Diz-me, Investimos nelas todos os dias um pouco como que ETFs mas esperamos não um crescimento de oito porcento ao ano mas de duzentos porcento, pelo menos no primeiro ano, Não concordo com o que dizes, porque eu não o faço, mas isso excitou-me, anda cá, ele deixou cair o bisturi e agarrou-a pela anca como eu estava agarrado à vida naquele momento, Quero-te, Eu também te quero tanto, mas queriam também terminar a cirurgia, pelo que voltaram ao trabalho, fizeram o que tinham de fazer na minha garganta, e fecharam a extensa cicatriz, para alívio do meu eu deitado.

O meu eu mais levantado viu-se no dia seguinte no estádio. Cirurgia de ambulatório, mas que exige cuidados e um parco uso da voz, haviam-me dito à saída, mas no calor do momento, porque o rapaz da minha altura que tem poucas oportunidades no onze e ainda assim quando as tem as desperdiça com uma eterna e insuportável incapacidade de bem definir no miolo, não obstante ser dono de uma técnica extraordinária, errara mais um passe simples, gritei, Por amor de deus!, gritei numa voz rouca, mas funcional, o que me preocupou; a intervenção, sabia, devia ter-me tirado, quase inteiramente, a capacidade de projeção durante os primeiros dias de recuperação. Em jeito de confirmação, reparei de novo no braço na extensa cicatriz, pedi que me apontassem para o curativo no pescoço, e sim, a cirurgia tinha acontecido e nada disto era uma alucinação.

Chegado a casa, numa ânsia, caminhava de lado para lado, sem poder parar, quando me ligaram, Caro senhor, queremos informar que a cirurgia não foi bem sucedida, por precaução os médicos decidiram não prosseguir com o procedimento, devido às dificuldades encontradas, as suas entranhas desorganizadas, contudo, fique descansado, a partir da identificação biométrica das suas cordas vocais, que recolhemos durante o procedimento, sabemos agora tudo o que pensa e pretende fazer, Como, As cordas reverberam a uma frequência conhecida, sempre que pensa, conforme o que pensa, E em que é que isto me ajuda ou quando é que eu pedi isto, Não pediu, mas nós sabemos o que realmente precisava, alguém que compreendesse o que pensa e lhe respondesse em direto.

Pela noite, limitei-me a jogar o jogo do oásis. Naquela sessão, um dos personagens utilizadores de bicicleta era um clone meu, replicação perfeita das minhas dimensões numa, e o coordenador da autoridade central de oásis em desertos, acabado de sair pela porta principal da sede, era uma versão digital do meu médico.